Thirst (Bakjwi), Chan-Wook Park, 2009

“Oldboy” foi um dos filmes que mudaram minha vida. Quando vi ele, no verão de  2005, eu estava numa fase de transição entre o olhar cinéfilo e aquele olhar mais aguçado, critico e cínico em relação ao cinema. Eu já passava os dedos pela segunda camada da pelicula, a camada dos simbolos e das idéias, das metáforas e dos paralelos, mas ainda era muito interessado pelo espetáculo. Este filme me ajudou na árdua tarefa de considerar as coisas com o mesmo peso, me ajudando a separar o velho super-analítico e a criança deslumbrada, cada um em um dos olhos que refletem a tela.

De cá pra lá assisti todos os filmes dele mais badalados (A Trilogia Da Vingança), o engenhoso capitulo dele na antologia “Three…Extremes” e o melodramático filme anti-guerra J.S.A.  Park pode não ser considerado um gênio, ainda mais comparado com os que vieram antes dele, mas ainda estou pra conhecer alguem que não concorde que ele pelo menos seja um diretor extremamente sólido e com exímio dominio das técnicas do cinema. Quando ouvi falar que próximo projeto dele era sobre vampiros, temi um pouco que ele “se vendesse” – termo que eu mesmo acho ridiculo, como se cineastas vivessem pela filântropia – e resolvesse, afinal, encher um pouco os bolsos com a “hype” atual dos vampiros.

As bolhas escabrosas mostradas nos primeiros minutos, misturadas aos vomitos ensanguentados, me provaram que eu estava errado.

“Thirst” é mais uma obra que comprova o gosto de Park pelo labiríntico, e se nesse as proporções não se exacerbam com o numero de personagens, isso é feito pela complicada relação entre os protagonistas. De um lado, o angustiado padre interpretado pelo super astro(eu assumo, tendo em vista o numero de filmes nos quais ele trabalha e é protagonista) sul-coreano Kang-ho Song, que logo nas cenas iniciais descobre-se portador de uma das mais antigas maldições conhecidas pela humanidade; do outro Ok-bin Kim, uma jovem subjugada pela familía que a acolheu, à espera da primeira possibilidade de mudança.

É redundante qualquer comentário maior sobre a fotografia e o trabalho de camera do filme. Tudo é sublime, e sem ser forçado; Park não sente necessidade de se exibir com malabarismos cinematográficos desnecessários. O uso dos efeitos especiais é bem dosado, havendo até a utilização de efeitos digitais, de forma bem discreta e de bom gosto. As cenas de vôos são de uma beleza impar, esmagando cenas semelhantes de filmes de “vampiros da Malhação” contra o solo sem dó. E o trabalho dos atores está bem mais ao gosto do espectador do oeste, sem tanto aquele peculiar exagero do cinema oriental.

O interessante do filme é assumir um paralelo direto com as relações humanas amorosas “normais”; em dado momento da obra, tudo poderia funcionar mesmo sem o elemento catalista do sobrenatural; traição, perdão, incompreensão e incompatibilidade entre objetivos e estilos de vida, assim como num casal normal, são pontos que fazem toda a diferença.

É verdade que o filme vá se arrastando um pouco lá pelo meio, mas é um arrastar necessário, aonde se revelam os motivos mais mesquinhos de alguns personagens, cenas servem para pavimentar a estrada pela qual Park nos quer fazer caminhar. Não se deve analisar todas as ações dos personagens isoladamente; lembrem-se sempre de que se trata, ultimamente, de amor, e que esse sentimento dificilmente segue alguma linha de racionio clara.

Os primorosos ultimos minutos do filme provam a extensão da habilidade de Park, utilizando um humor quase que pastelão, antes do belo e inevitavel encerramento. Humor bobo, por sinal, que permeia a narrativa, sem exageros, e me faz lembrar de outro cineasta de olhos puxados, Takeshi Kitano. É possivel fazer um filme sobre amor e sacrificio sem martelar ambos sobre nossa cabeça durante a duração da história; é possivel fazer um filme de vampiros sem ignorar desonestamente o vórtice de incongruências que compoe o ser humano (afinal, o vampiro, quando corrompido, não passa de um humano com muito poder), e é possivel fazer tudo isso com estilo e graça. Obrigado mais uma vez, sr. Park.

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