Existem coisas em “M” que me deixaram tão estupefato quanto fiquei com a cena inicial da morte da garotinha (cena que já conhecia de antemão, de uma aula na faculdade). Alem das proezas técnicas, existe uma sofisticação em M que eu ainda não vi em nenhum outro filme contemporâneo a este.
O roteiro envolve tantos aspectos interessantes, que fica dificil acreditar que tenha sido escrito na sua epoca. Não que o cinema mudo de meia decada anterior a este fosse bobo, mas as estruturas dos filmes eram realmente muito mais simples. “M”, até mais ou menos a metade do filme, é mais corriqueiro, mostrando a investigação desastrada da policia, mas a partir da segunda metade, ele se bifurca em duas linhas, acompanhando tambem uma inesperada ação dos bandidos da cidade, que resolvem caçar o assassino por conta propria, já que com os batalhões de policiais deslocados por este, fica dificil para um criminoso “trabalhar” em paz.
Peter Lorre; estes olhos enormes nasceram para encarnar vilões.
Existem tantos aspectos periféricos, como a paranóia em massa causada pelos jornais alarmistas, a hipocrisia no “tribunal” criado pelos criminosos para julgar M, e o ultimo apelo desesperado deste (maximizado por uma atuação nada caricata do grande Peter Lorre) . São tantos assuntos abordados tão naturalmente para o filme que isto, aliado ao primor técnico, poderiam fazer “M” passar por um filme de pelo menos uma decada e meia a frente do seu tempo, se o visual caracteristico do cinema da epoca não o entregasse.
Agora tenho que fazer um óbvio comentário à meticulosa construção do filme. Simples, porem efetivos e notáveis planos-sequencias permeiam a narrativa. A edição absolutamente precisa, inclusive em seqüencias de ações paralelas indistinguíveis das de hoje. E claro, Lang conseguiu criar uma seqüência inicial que talvez não tenha sido superada até hoje. A sombra projetada no cartaz, as imagens estáticas dos ambientes vazios, os chamados da mãe, em vão, e a inesquecível imagem da bola timidamente rolando que precede um balão, agora sem dono, preso aos postes de eletricidade. É uma das seqüencias que mais se aproximam da idéia que eu tenho do que seria perfeitamente cinema. Algo assim não poderia existir com tanta eficácia em nenhuma outra forma de arte.
O inicio…
… e o fim de um breve exemplo do que É a sétima arte.


