Chopping Mall, Doghouse, Harry Brown e Living In Oblivion

Junho 20, 2010

A preguiça de fazer uma resenha individual para cada um desses filmes é muito grande (até porque alguns não merecem um texto maior), então vamos lá:

Chopping Mall: 8 adolescentes fodedores (ok, 6, 2 são nerds) ficam presos num shopping, sendo caçados por 3 robôs assassinos de design feio pra cacete.

Dificil algo conseguir ser mais oitentista que isso (porra, é só olhar a tagline do poster). Esse filme cristaliza tudo que amamos do cinema fantástico dessa época, inclusive coisas das quais nos envergonhamos um pouco de gostar, mas acho que a nostalgia vence o constrangimento. Atenção pras roupas e pros penteados, que parecem mais ridiculos que o normal pros anos 80, e tambem para o fato de que coisas que deveriam ser apenas inflamaveis se tornam explosivas. Diversão de primeira, se você for saudosista.

Doghouse: 7 amigos homens (ou seja, beberrões e misóginos) se encontram presos em uma vila na qual todas as mulheres se tornaram devoradoras de homens (haha).

O cinema inglês de horror, que ultimamente anda muito engraçadinho, já está começando a tropeçar. Doghouse é divertido até que começa a dar no saco por bater muito na mesma tecla, mas provavelmente a culpa é minha, por ver sozinho e com sono um filme que eu deveria ver com um punhado de amigos (homens), tomando cerveja (não bebo). Mas ainda assim deu pra divertir, e por mais que eu tenha dito ali em cima que esse nicho está começando a se deteriorar, ainda prefiro um filme desses do que o aporrinhamento que é o tal cinema “visceral” francês de horror atual.

Harry Brown: Além de enviuvar recentemente, Harry Brown perde um amigo de longa data por conta de um bando de marginais de merda. É hora de tirar do baú tudo que aprendeu na epoca em que era fuzileiro. Fuck yeah.

Gostei bastante, como gosto geralmente de qualquer filme sobre vigilantismo. Só acho que se perde um pouco com a trama semi-paralela da detetive que acompanha os passos de Brown, mas acho que é mais convenção de um filme que não tem muita força própria pra se identificar entre outros filmes com o mesmo tema. Mas é sempre divertido ver um senhor acabar com bandidos, seja Charles Bronson ou Michael Caine. Ah, o trabalho de câmera também é ótimo.

Living In Oblivion: Diretor enlouquecendo, equipe incapaz, enfim, cinema sendo feito.

Até que esse pequeno petardo merecia um comentário mais longo, mas agora azar. É especialmente interessante ver um filme desses quando se está recém entrando nesse mundo tempestuoso da produção cinematográfica. Tudo ali é tão fiel a realidade, só que deliciosamente extrapolado em virtude da comédia. Gostei especialmente da estrutura em 3 atos nem tão distintos assim. É algo que deveria ser mostrado em todos os cursos de cinema. E apesar do diretor negar, o tal do “Chad Palomino” É o Brad Pitt,  não tem como não ser.

Thirst (Bakjwi), Chan-Wook Park, 2009

Junho 18, 2010

“Oldboy” foi um dos filmes que mudaram minha vida. Quando vi ele, no verão de  2005, eu estava numa fase de transição entre o olhar cinéfilo e aquele olhar mais aguçado, critico e cínico em relação ao cinema. Eu já passava os dedos pela segunda camada da pelicula, a camada dos simbolos e das idéias, das metáforas e dos paralelos, mas ainda era muito interessado pelo espetáculo. Este filme me ajudou na árdua tarefa de considerar as coisas com o mesmo peso, me ajudando a separar o velho super-analítico e a criança deslumbrada, cada um em um dos olhos que refletem a tela.

De cá pra lá assisti todos os filmes dele mais badalados (A Trilogia Da Vingança), o engenhoso capitulo dele na antologia “Three…Extremes” e o melodramático filme anti-guerra J.S.A.  Park pode não ser considerado um gênio, ainda mais comparado com os que vieram antes dele, mas ainda estou pra conhecer alguem que não concorde que ele pelo menos seja um diretor extremamente sólido e com exímio dominio das técnicas do cinema. Quando ouvi falar que próximo projeto dele era sobre vampiros, temi um pouco que ele “se vendesse” – termo que eu mesmo acho ridiculo, como se cineastas vivessem pela filântropia – e resolvesse, afinal, encher um pouco os bolsos com a “hype” atual dos vampiros.

As bolhas escabrosas mostradas nos primeiros minutos, misturadas aos vomitos ensanguentados, me provaram que eu estava errado.

“Thirst” é mais uma obra que comprova o gosto de Park pelo labiríntico, e se nesse as proporções não se exacerbam com o numero de personagens, isso é feito pela complicada relação entre os protagonistas. De um lado, o angustiado padre interpretado pelo super astro(eu assumo, tendo em vista o numero de filmes nos quais ele trabalha e é protagonista) sul-coreano Kang-ho Song, que logo nas cenas iniciais descobre-se portador de uma das mais antigas maldições conhecidas pela humanidade; do outro Ok-bin Kim, uma jovem subjugada pela familía que a acolheu, à espera da primeira possibilidade de mudança.

É redundante qualquer comentário maior sobre a fotografia e o trabalho de camera do filme. Tudo é sublime, e sem ser forçado; Park não sente necessidade de se exibir com malabarismos cinematográficos desnecessários. O uso dos efeitos especiais é bem dosado, havendo até a utilização de efeitos digitais, de forma bem discreta e de bom gosto. As cenas de vôos são de uma beleza impar, esmagando cenas semelhantes de filmes de “vampiros da Malhação” contra o solo sem dó. E o trabalho dos atores está bem mais ao gosto do espectador do oeste, sem tanto aquele peculiar exagero do cinema oriental.

O interessante do filme é assumir um paralelo direto com as relações humanas amorosas “normais”; em dado momento da obra, tudo poderia funcionar mesmo sem o elemento catalista do sobrenatural; traição, perdão, incompreensão e incompatibilidade entre objetivos e estilos de vida, assim como num casal normal, são pontos que fazem toda a diferença.

É verdade que o filme vá se arrastando um pouco lá pelo meio, mas é um arrastar necessário, aonde se revelam os motivos mais mesquinhos de alguns personagens, cenas servem para pavimentar a estrada pela qual Park nos quer fazer caminhar. Não se deve analisar todas as ações dos personagens isoladamente; lembrem-se sempre de que se trata, ultimamente, de amor, e que esse sentimento dificilmente segue alguma linha de racionio clara.

Os primorosos ultimos minutos do filme provam a extensão da habilidade de Park, utilizando um humor quase que pastelão, antes do belo e inevitavel encerramento. Humor bobo, por sinal, que permeia a narrativa, sem exageros, e me faz lembrar de outro cineasta de olhos puxados, Takeshi Kitano. É possivel fazer um filme sobre amor e sacrificio sem martelar ambos sobre nossa cabeça durante a duração da história; é possivel fazer um filme de vampiros sem ignorar desonestamente o vórtice de incongruências que compoe o ser humano (afinal, o vampiro, quando corrompido, não passa de um humano com muito poder), e é possivel fazer tudo isso com estilo e graça. Obrigado mais uma vez, sr. Park.

Daybreakers, Irmãos Spierig, 2009

Maio 27, 2010

É tão boa a sensação de ver algo quebrando um molde torto. Mesmo que não seja genial, mesmo que não seja inédito, aquela obra que quebra uma sequência de tendências enfadonhas sempre me dá aquele gostinho de rebeldia, de ir contra ao que é conveniente. E quando se trata de terror, isso me deixa ainda mais feliz – nada me deixa mais profundamente triste que ver a lenda do vampiro sendo usada como um receptáculo para historias rasas e sentimentais. 

Os Irmaos Spierig ja tem pontos comigo desde o primeiro filme deles, o quase sem pé nem cabeça, mas absurdamente divertido, “Canibais”. Aquela verve hiperativa, que muito tem a ver com o Peter Jackson e o Sam Raimi de outrora, se encontra também em Daybreakers; uma sacada muito boa, e que entra em contraste gritante com a suposta elegância do futuro distópico no qual a humanidade se transformou em vampiros quase por completo.

O triunfo no filme esta justamente em oferecer uma historia sem maiores frescuras, sem deformar o básico do que já conhecemos das historias sobre os chupadores de sangue com o intuito de arrancar dinheiro de pré-adolescentes ensandecidas (e para nosso pavor, as vezes não tão “pré-adolescentes” assim), e mesmo assim oferecer algo que soa original. 

A estrutura do filme em si e bem básica, e o roteiro não e nem um pouco espetacular (embora contenha boas ideias, como o que acontece com os vampiros quando deixam de se alimentar, e a revelação da cura do vampirismo). Mas o filme e curto e fluido o bastante pra não incomodar, deixando gravado na minha mente a sensação de frescor que o enredo causa e os momentos de gore, que são todos bem bacanas, com o direito a uma mutilação completa no final feita com efeitos tradicionais. Alias, todos os efeitos do filme são muito bons considerando os 30 milhões que foram usados, uma merreca para um filme desse porte.

Daybreakers não veio para revolucionar nada, mas apenas para nos lembrar que vampiros não seduzem fazendo biquinho, e  não brilham no sol. Ao menos não por muito tempo.

Vampiro. Entendem?

Desejo De Matar (Death Wish), 1974, Michael Winner

Maio 11, 2010

No momento em que vi que “Death Wish” tinha 89 minutos, eu já percebi que o filme não estaria pra brincadeira. Vejam bem, existem grandes obras primas do cinema com 2h e pouco, 3h de duração, mas o “grosso” do que há de melhor, geralmente, possui por volta de 90 minutos. É só conferir a maior parte da filmografia de Woody Allen e Ingmar Bergman para entender do que eu estou falando.

É essa estócidade que permite que Desejo De Matar seja o grande filme que é: não há espaço pra frescuras aqui. Não existem histórias paralelas para encher linguiça; não há maiores debates sobre a moralidade do que o protagonista faz. É simplesmente, duramente, e sem piedade, um filme de vingança, e um dos melhores já feitos.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que o filme seja uni-dimensional ou vazio. É verdade que só há espaço para o desenvolvimento do personagem de Bronson, e alguns podem reclamar que os bandidos são pintados como “bobos e malvados”. Claro que na vida real não temos tambem tempo de conhece-los enquanto estamos sobre a mira de suas armas ou sentindo o fisgar pontiagudo de uma lâmina contra as costas, o que condiz com o ponto de vista passado no filme.

A cena de estupro incial é relativamente brutal (mesmo com a desinsetização quanto a violencia, pela qual todos nós estamos gradualmente passando) , e retrata bem a invasão da violência naquela epoca pós “bichos grilos”. Informação que fica bem clara, inclusive, na relação entre o protagonista e o genro, o primeiro um ex-combate da guerra da Coréia, enquanto o outro provavelmente é fruto da educação esfumaçada. Personagem este do genro, inclusive, bastante irritante, mas acho que é mais para causar o conflito já citado.

Por fim, é bem interessante como o filme acaba, já que durante esta primeira vez que assisti, me encontrei imaginando daonde viriam as sequencias. É criado um “serial killer do bem”, décadas antes do tal do Dexter, mas infinitamente mais relacionavel e humano. E nada melhor que os olhos tristes de Charles Bronson para representar a catarse do ser humano médio, queimando em ódio e impotência.

Seguinte vagabundo: teu drink vem com azeitona e Charles Bronson é o garçom.

Sobre o Fantaspoa 2010

Maio 10, 2010

Segue post publicado no blog do Fantaspoa: http://fantaspoa.wordpress.com/

Prezados,

Daqui a quatro meses estará ocorrendo o VI Fantaspoa – Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre. Em virtude disso, estamos enviando o seguinte e-mail para tratar de três assuntos: (1) a submissão de curtas-metragens para seleção; (2) a programação do festival de 2010; e (3) a continuidade do festival após o ano de 2010.

(1) Inscrições Abertas para curtas-metragens:

Fantaspoa está com inscrições abertas para a mostra competitiva de curtas-metragens. As inscrições vão até o dia 15 de abril. Podem ser submetidos filmes realizados após 2006 e dos gêneros fantasia, ficção-científica, horror e suspense. Para maiores informações, entre em contato pelo e-mailfantaspoa@fantaspoa.com

(2) A Programação do Festival de 2010:

Aqueles que acompanham o evento se surpreenderão com a programação que iremos apresentar em 2010. A Competição Internacional contará com uma série de títulos de grande importância que vem marcando presença em alguns dos mais importantes festivais de cinema do mundo (de gênero fantástico ou não). Uma maior diversidade de gêneros estará presente, assim como de países. As mostras paralelas serão bem variadas e o que podemos adiantar é a presença do renomado diretor italiano Luigi Cozzi. Entre os dias 06 e 09 de julho, ele fará uma série de palestras. Cozzi dirigiu mais de 15 longas-metragens (dentre eles, “Starcrash”, “Alien Contamination” e “Paganini Horror”) e trabalhou com atores como David Hasselhoff, Caroline Munro, Lou Ferrigno, Klaus Kinski e Donald Pleasence.  Também escreveu roteiros de filmes realizados por colegas talentosos, como Dario Argento, Lamberto Bava e Joe D’Amato. Dentre uma série de outras mostras, o VI Fantaspoa exibirá uma mostra retrospectiva do trabalho de Luigi, contendo 12 de suas obras.

E o ponto principal:

(3) A Continuidade do Festival após o Ano de 2010:

Inicialmente queremos esclarecer que sabemos que algumas pessoas não apreciam o nosso festival, seja pelos filmes que exibimos, ou pelo fato de exibirmos a maioria dos filmes em DVD e em Blu-Ray. Somente queríamos deixá-los a par do fato que recentemente fizemos um levantamento de custos para podermos trazer filmes em 35 MM esse ano. Como nenhum dos filmes que exibimos possui cópias no Brasil, a média de frete (ida e volta) da Europa e EUA, é de aproximadamente R$10.000,00 POR filme. Além disso, existe a cobrança de taxas para exibição de uma série de filmes. Por exemplo, poderíamos exibir um dos filmes vencedores do festival de Cannes esse ano e, além do valor do frete, teríamos que pagar uma fee (taxa de exibição) de R$2.500,00.

Já lemos em diversos sites e blogs reclamações sobre a nossa programação e que deveríamos trazer uma série de filmes, dentre os quais podemos citar somente alguns: Martyrs, The Children, Frontier(s), Dead Snow, ZMD e Must Love Death. O que as pessoas não sabem é que nós TENTAMOS trazer cada um desses filmes e todos se enquadram no caso acima. Ou seja, além de uma fee exorbitante, a obrigatoriedade da exibição em película.

Para aqueles que conhecem mais de perto o nosso evento sabem que realizamos o mesmo com auto-investimento e que o nosso orçamento total gira em torno de R$25.000,00 e que, portanto, pagar fees de R$2.500,00 ou trazer filmes em outras mídias se tornam inviável. Além disso, as salas que utilizamos não possuem projetores de HDCam nem Digibeta. Além do valor que investimos a fundo perdido, temos todo o trabalho de produzir o festival, selecionar e legendar cada um dos filmes. Nós não temos nenhum apoiador/patrocinador, público ou privado que cubra os gastos do festival e os mesmos se tornaram altos demais para continuarmos com o projeto.

Estamos tentando aprimorar o nosso evento, apesar da dificuldade de receber qualquer apoio e patrocínio realmente significativo. Pelo segundo ano estamos inscritos na Lei Rouanet e apesar de contatarmos uma série de empresas, não estamos conseguindo nenhum tipo de apoio.

Se por acaso você conhece alguma empresa que possa nos apoiar, peço que nos passem o contato do responsável, para que possamos enviar o nosso projeto para eles. Um evento independente, que em uma cidade como Porto Alegre, nas salas do centro, leva 6.000 espectadores ao cinema ao longo de somente dezoito dias não deveria simplesmente deixar de existir. E infelizmente isso acontecerá caso a situação não mude em 2010.

Nós realmente precisamos de apoio urgente para que o festival não seja cancelado, e o apoio necessário é financeiro. Você pode ajudar publicando essa mensagem em seu site, blog ou enviando para os amigos.

Raça Das Trevas (Nightbreed), Clive Barker, 1990.

Maio 2, 2010

“David Cronenberg intepreta o vilão”

No momento em que lí isso, tive que conferir.  ”Nightbreed” é um filme que fede à anos 80, um fedor bom, mas claro, um fedor que será melhor apreciado por quem viveu a época, ou pelo menos cresceu assistindo os filmes do periodo. Baseado num conto chamado “Cabal”, de Clive Barker, e dirigido pelo próprio, “Raça Das Trevas” estende aquela fascinação há 80 anos já exercitada por Tod Browning em “Freaks”: que tal se os “monstros” não forem os vilões, para variar um poucos as coisas?

Cinematográficamente, o filme não tem nenhuma novidade. É o tipico horror extremamente colorido e exagerado feito na época, com todo os defeitos comuns, como um roteiro atropelando a si mesmo e dialogos mal escritos. Mas é óbvio que isso não impede “Nightbreed” de ser uma boa diversão, mas que provavelmente apelará mais aos adeptos do cinema oitentista.

Um dos grandes atrativos, como já dito, é o fato dos monstros serem as vitimas. O filme foca-se apenas em algumas criaturas, mas mostra uma diversidade delas dentro de Midian, a cidadela aonde as diferentes raças convivem, expondo um belo e variado trabalho de maquiagem. O interessante da história é que, num universo aonde o sobrenatural de fato existe ao lado do “natural” (inclusive os humanos são chamados assim pelas aberrações), os humanos ainda são reconhecidos como os vilões… o que nos leva ao histéricamente contido personagem intepretado pelo diretor Cronenberg, que com sua fala mansa e seu alter-ego mascarado, é estranhamente competente.

Uma das coisas que mais incomoda durante o filme é justamente o roteiro meio abobalhado, que parece até meio desconexo em alguns pontos. Achei isto muito estranho e descobri que existe cerca de 25 minutos de material removidos da versão final do filme, o que explica muito. Assim como está, Nightbreed é uma diversão competente, se você não for muito exigente, mas imagino que com tanto tempo a mais de filme para amarrar algumas pontas, poderia se tornar algo realmente memoravel (algo que já é, digo novamente, pra quem viu na epoca, mas é um filme que certamente envelheceu mal, num sentido geral). Resta esperar para ver se esta versão sairá algum dia.

O tipo de gente que seus pais lhe avisam para não se fazer amizades.

The Good, The Bad, The Weird (Joheunnom Nabbeunnom Isanghannom), Ji-woon Kim, 2008

Abril 25, 2010

Eu odeio remakes. Isso é, remakes que seguem exatamente o que o filme original fez, mudando uma coisinha aqui e lá para tentar justificar a própria existência, tentando nos fazer pensar que existem por algum motivo a mais que não seja capitalizar em um nome cultuado. Não me lembro de nenhum remake que eu tenha gostado, até hoje. Porem, quando há uma re-imaginação da obra, a figura muda. Um dos filmes favoritos, “The Thing”, de John Carpenter, por exemplo, é uma re-intepretação do conto do qual um um filme semelhante tirou inspiração, “The Thing From Another World”, nos anos 50.

Algo parecido acontece com “The Good, The Bad, The Weird”, filme sul-coreano que presta uma homenagem ao clássico de Sérgio Leone, “roubando” o mote inicial, mas desenvolvendo-o de forma diferente.

Uma das qualidades do filme é a de tomar posse da absurda técnica cinematográfica do cinema sul-coreano atual. As cenas de ação estão entre as melhores que já vi na vida, insanamente coreografadas e o trabalho de camera é cirurgicamente perfeito, o que me deixa imaginando o trabalho homérico que foi gravar alguns planos sequencias, como o que acontece numa cidade logo após “Weird” conseguir o mapa. Porém, parece que a camera hiperativa não consegue se aquietar nos momentos nos quais deve, fazendo closes e giros irritantes durante algumas cenas de diálogo.

O Bom (você não é o Blondie)…

Falando no “Weird”, personagem encarnado pelo ator Kang-ho Song, rosto já conhecido por quem assistiu “The Host”, “Memories Of Murder”, “Sympathy For Mr Vengeance” e “JSA”, o filme é claramente apoiado nele, diferentemente do original que era bem dividido entre os 3 personagens. Todo o humor do filme é focado neste personagem, e ao menos funciona (provavelmente dei umas 10 gargalhadas durante o filme, o que é no minimo dez vezes mais do que rio nas comédias atuais). Aliás, isto é algo que admiro muito no cinema oriental em geral, a capacidade de incluir um humor muitas vezes digno do termo “pastelão” sem faze-lo parecer demasiadamente bobo ou fora de lugar.

… O Mau (ou ele tenta parecer)…

Os problemas surgem quando pensamos nos outros dois co-protagonistas. Como já dito, no filme que serviu de inspiração, existe um bom espaço para os três personagens, não necessáriamente com o mesmo tempo em tela, mas são equilibrados em exposição de motivos. Aqui o ator que faz o “Good” tenta fazer a melhor pose de Clint Eastwood que ele consegue (mas não funciona) e “Bad” parece que saiu de algum grupo kei japonês. Não chegamos a conhecer nenhum dos personagens propriamente, já que o roteiro se importa mais em despejar cenas de ação (absolutamente fantásticas, devo reafirmar) e se esquece de desenvolver pelo menos algum deles, para haver pelo menos um “norte” para o espectador, que num filme destes supostamente deveria se preocupar com os peões que percorrem o tabuleiro.

…O Estranho (e feio)…

A história é atropelada demais para oferecer qualquer gancho satisfatório para fisgar nossa atenção, e eu, com uma hora de filme, já não me importava mais com o que acontecia ou com os personagens. Não há nenhuma tirada esperta fora as peripécias e as pirotecnias, e isso diminiu o valor do filme consideravelmente, deixando aquela impressão de que a obra poderia ser uma memoravel brincadeira com o western italiano, mas não houve essa preocupação, sentimento que percebo tambem no “Sukyiaki Western Django” do diretor Takashi Miike, embora este ultimo seja muito mais porra-louca e memoravel.

E um dos momentos antologicos do original, o “trielo” final, perde qualquer significado, se tornando uma cena vazia e sem impacto. Uma pena.

… e A Vovó (porra, ele merecia espaço no título).

M – O Vampiro De Dusseldorf (M), 1931, Fritz Lang

Abril 11, 2010

Existem coisas em “M” que me deixaram tão estupefato quanto fiquei com a cena inicial da morte da garotinha (cena que já conhecia de antemão, de uma aula na faculdade). Alem das proezas técnicas, existe uma sofisticação em M que eu ainda não vi em nenhum outro filme contemporâneo a este.

O roteiro envolve tantos aspectos interessantes, que fica dificil acreditar que tenha sido escrito na sua epoca. Não que o cinema mudo de meia decada anterior a este fosse bobo, mas as estruturas dos filmes eram realmente muito mais simples. “M”, até mais ou menos a metade do filme, é mais corriqueiro, mostrando a investigação desastrada da policia, mas a partir da segunda metade, ele se bifurca em duas linhas, acompanhando tambem uma inesperada ação dos bandidos da cidade, que resolvem caçar o assassino por conta propria, já que com os batalhões de policiais deslocados por este, fica dificil para um criminoso “trabalhar” em paz.

Peter Lorre; estes olhos enormes nasceram para encarnar vilões.

Existem tantos aspectos periféricos, como a paranóia em massa causada pelos jornais alarmistas, a hipocrisia no “tribunal” criado pelos criminosos para julgar M, e o ultimo apelo desesperado deste (maximizado por uma atuação nada caricata do grande Peter Lorre) . São tantos assuntos abordados tão naturalmente para o filme que isto, aliado ao primor técnico, poderiam fazer “M” passar por um filme de pelo menos uma decada e meia a frente do seu tempo, se o visual caracteristico do cinema da epoca não o entregasse.

Agora tenho que fazer um óbvio comentário à meticulosa construção do filme. Simples, porem efetivos e notáveis planos-sequencias permeiam a narrativa. A edição absolutamente precisa, inclusive em seqüencias de ações paralelas indistinguíveis das de hoje. E claro, Lang conseguiu criar uma seqüência inicial que talvez não tenha sido superada até hoje. A sombra projetada no cartaz, as imagens estáticas dos ambientes vazios, os chamados da mãe, em vão,  e a inesquecível imagem da bola timidamente rolando que precede um balão, agora sem dono, preso aos postes de eletricidade. É uma das seqüencias que mais se aproximam da idéia que eu tenho do que seria perfeitamente cinema. Algo assim não poderia existir com tanta eficácia em nenhuma outra forma de arte.

O inicio…

… e o fim de um breve exemplo do que É a sétima arte.


Alem Da Imaginação (The Twilight Zone), 1959, 1ª Temporada, episodios 1 e 2

Abril 3, 2010

Bom, a partir de hoje começo a assistir “Alem Da Imaginação”. Sempre tive curiosidade de assistir essa série, cujos roteiros saidos da brilhante mente de Rod Sterling (e de outras mentes brilhantes convidadas) influenciaram incontaveis longas do cinema fantástico nas ultimas 5 decadas. Já nos dois primeiros episodios consigo identificar algumas influencias.

1 – Where Is Everybody? – Um homem acorda sozinho numa cidade, e parte a procura de pessoas. Episodio piloto, clara influencia para filmes como Exterminio, The Silent Earth, e tambem influenciado pelo livro  ”Eu Sou A Lenda”, de Richard Matheson, lançado 5 anos antes do episodio. Gostei do final absolutamente mundano, dando aquele gostinho de que “Alem Da Imaginação” vai fazer o que a fantasia, como genero, faz melhor: analisar o comportamente humano por meio de histórias fantásticas.

Bom, ao menos não há zumbis querendo lhe estripar.

2 – One For The Angels – Simpático vendedor, adorado pelas crianças, é confrontado por um entediado ceifador de almas, vestido devidamente com um terno preto, que veio busca-lo. Episodio mais leve, que mostra que a série não tem medo de alternar entre histórias mais pessimistas e histórias sobre os raros triunfos do espirito humano. Provavelmente serviu de influencia ao filme “Encontro Marcado”, com Brad Pitt e Anthony Hopkins.

A morte cuidadosamente toma anotações sobre seu próximo trabalho.

Sempre fui fã de séries e antologias de horrror, como “Masters Of Terror” e os volumes de “Creepshow”. Agora tenho um prato cheio e extenso pela frente, pois após terminar a série classica, pretendo assistir as encarnações da decada de 80 e desta decada.

O General (The General), Buster Keaton e Clyde Bruckman, 1926

Abril 3, 2010

Fazia tempo que eu me enrolava para conhecer o cinema de Buster Keaton, artista que muito vejo sendo comparado com Chaplin. E não é pra menos. Keaton fazia cenas perigosissimas, como as que vemos em “O General”, fazendo palhaçada dentro de um trem em movimento, numa epoca na qual, imagino, as precauções fossem minimas.

O filme tem uma estrutura bem simples, consiste numa viagem de trem de ida, uma parada num ponto de virada da trama, e depois o retorno pelo mesmo caminho. Mesmo sendo um filme muito simples, Keaton e Bruckman conseguem construir uma sequencia relativamente complexa de gags envolvendo o trajeto do trem, enormemente criativas. Obviamente, por se tratar de um filme calcado na ação na epoca do cinema mudo, ele tem um certo problema de ritmo, mas que não chega a deixar o filme cansativo, pois ele é curto, na realidade até um pouco mais longo que o normal para os filmes de epoca, mas ainda assim no tempo certo para não cansar. Destaco tambem a trilha sonora, que não sei se é a mesma utilizada na epoca do lançamento (imagino que não), que tinha temas excelentes que se repetiam em momentos especificos.

Uma coisa que me impressionou foi a consistencia do filme. Tendo em conta que dos 75 minutos do filme, uns 60 são de perseguição, eu esperava um bom numero de erros de continuação e algumas cenas sem pé nem cabeça, mas a obra não faz feio pra nenhum filme de ação hoje em dia, sendo bem feito em todos os sentidos, com a energia disposta por Keaton vibrando em cada sequencia.

Fico curioso agora para conhecer mais do cinema deste grande artesão de piadas fisicas, cuja fama ficou um tanto ofuscada pelo adoravel vagabundo, mas não esquecida.


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